Entrevista com Emmanuele Baldini

Protásio Moraes/OEMT

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Eu sei que já passou a data do concerto, mas a entrevista ainda valiosa. Boa leitura!

“A orquestra que toca bem a obra de Felix Mendelssohn, Samuel Barber e Beethoven é capaz de tocar bem qualquer coisa”, disse o maestro Leandro Carvalho, referindo-se a dificuldade técnica do repertório que será apresentado pela Orquestra de Mato Grosso, nos próximos dias 28 e 29 de agosto, às 20 horas e 19 horas, respectivamente no Cine Teatro Cuiabá, pela série de Concertos Oficiais.

Com formação sinfônica, a OEMT contará com quarenta instrumentistas de várias partes do país e do mundo. Entre os músicos que virão para os Concertos Oficiais de agosto estará o violinista Emmanuele Baldini, atual spalla da Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo e membro do quarteto de cordas da OSESP.

Nascido na cidade de Trieste, na Itália, Emmanuele Baldini venceu o primeiro concurso internacional aos 12 anos de idade, e mais tarde, o Virtuositè de Genebra e o primeiro prêmio do Forum Junger Künstle de Viena. Apresentou-se em recitais nas principais cidades européias e participou de longas turnês pela América do Sul, Estados Unidos, Europa, Austrália e Japão.

O site da OEMT entrevistou Baldini, que falou sobre a música de concerto produzida no Brasil , acesso a esse tipo de arte, John Neschling, Mendelssohn, Barber, Beethoven e mais. Confira a entrevista na íntegra.

OEMT – A OSESP é a maior referência da música de concerto no Brasil e inspirou a criação de dezenas de outras orquestras por todo o país. Hoje, são poucos os estado que não dispões de uma orquestra em funcionamento regular. Você já realizou recitais na Europa, no Japão e América Latina. Gostaria de saber sua opinião a respeito da música de concerto produzida no Brasil e fora.

Baldini – A OSESP tornou-se um paradigma da música sinfônica no Brasil. É uma mistura da tradição européia com o melhor da música de concerto dos EUA do século passado. No Brasil, se me permite julgar, ainda falta uma percepção clara de como funciona uma orquestra sinfônica. Envolve muita disciplina, organização e trabalho duro. São 90 cabeças soando como um único instrumento, com objetivo comum, caminhando juntas e na mesma direção. Requer muito comprometimento e seriedade. Quanto ao público, penso que o Brasil está vivendo um momento de entusiasmo e curiosidade. Novas orquestras nascendo, novos grupos de música de câmara surgindo. Parece que o Brasil é um país que está entrando numa fase de maturidade musical.

OEMT – Sei que já foi muito comentado, mas como você trabalhou diretamente com ele, vou fazer uma pergunta relacionada: qual o significado da era John Neschling a frente da OSESP?

Baldini – Costumo dizer que a era Neschling não acabou. Acabou a era Neschling na OSESP!!! Eu sempre vou ter uma gratidão muito grande pelo que o maestro fez por mim e pela música no Brasil, mas como em alguns casamentos, chega uma hora que é evidente que os contrastes “familiares” são tão violentos que é bom para os dois lados se separar. Acho que, passada a natural decepção inicial, penso que tudo o que aconteceu fez bem para ele. Ele foi obrigado a procurar novo estímulo, como demonstra a Companhia da Opera. Quanto a OSESP, está cada vez mais saudável e cheia de boas perspectivas para o futuro. Respondendo a pergunta anterior (risos): a OSESP continua sendo uma referência, e continuam nascendo e crescendo orquestras novas e antigas que seguem os modelos da OSESP. Neschling continua fazendo coisas importantíssimas para o Brasil musical. Continua fazendo um trabalho valioso e logo logo resultados concretos serão evidentes.

OEMT –
E em relação ao acesso à música de concerto, hoje mais valorizada no Brasil do que nunca, porém, sempre muito apontado como arte da elite e excludente. O que pensa a respeito?

Baldini – A música é arte de elite, mas de uma elite não social ou financeira, e sim de uma elite de pessoas que, independentemente da classe social, quer algo além do material. O que a medicina faz para o corpo das pessoas, a música faz para a alma. As pessoas que se preocupam com a própria alma são um tipo de elite. É nosso trabalho inspirar as pessoas, nutrindo-as com o que de mais belo o ser humano criou. É tão importante quanto cuidar do corpo. Além disso, são cada vez mais frequentes as orquestras que propõem concertos a preços bem populares. Não tem desculpa: é só querer mesmo.

OEMT – Sobre a sua apresentação junto a Orquestra de Mato Grosso, o que espera de tais concertos e também do público aqui em Cuiabá?

Baldini – É minha primeira vez com a Orquestra de Mato Grosso, e, minha primeira vez na cidade de Cuiabá… Estou muito feliz, pois faz tempo que sigo os percursos musicais deste grupo de músicos e de seu maestro. Estou curioso, animado e cheio de expectativas.

OEMT – Você acompanha as atividades de outras orquestras, pelo Brasil?

Baldini – Acompanho a vida musical no mundo inteiro!!! Minha paixão é música, e desde criança meus primeiros cachês de concertos serviam para comprar gravações, revistas e biografias musicais. Conheço a vida musical brasileira e estrangeira, e fiquei feliz em descobrir os projetos lindos que o maestro Leandro Carvalho e a Orquestra de Mato Grosso estão levando em diante. Um crescimento tão rápido nem seria coisa tão raro, mas o que é raro nessa orquestra é que teve este crescimento, mas mantendo a qualidade como foco principal. Nunca assisti um concerto da Orquestra de Mato Grosso, mas são inúmeros os comentários e elogios de colegas e amigos, a respeito da OEMT. A minha participação nos Concertos Oficiais de agosto me dará uma visão mais prática a respeito.

OEMT – Gostaria que falasse um pouco sobre o repertório do mês de agosto da OEMT, que vai interpretar a abertura de Sonhos de uma noite de verão, de Mendelssohn, passando pela homenagem aos cem anos de nascimento de Samuel Barber e, por fim, a 8° sinfonia de Beethoven.

Baldini – Tirando o Concerto de Barber, é um programa de obras muito conhecidas, sendo a peça de Mendelssohn um exemplo do primeiro romantismo, e a Sinfonia n. 8 de Beethoven uma curiosa obra, no meio da 7 e da 9 Sinfonia, que mostra o lado menos “dramático” de Beethoven. Na verdade, ao longo da vida de Beethoven, são inúmeras as obras que saem daquele estereotipo segundo o qual a música de Beethoven é apenas dramática. Acontece que a “força dramática” de tais obras é tão envolvente, que esquece-se dos outros lados da personalidade e da música dele. Já o Concerto de Barber é uma homenagem ao romantismo, numa época que deixou de ser romântica. Quase uma “rebelião” contra todos os “novos caminhos” da composição musical. Percebe-se a modernidade, somente no último movimento, que é um “moto perpetuo” extremamente virtuoso e selvagem. Destaque especial para o segundo movimento, que começa com um dos solos de oboé mais lindos do repertório, clara homenagem ao Concerto para violino de Brahms.

OEMT – E sua história com a música, como começou? Já Iniciou sua trajetória com o violino?

Baldini – Nasci numa família de músicos. Tanto meu pai quanto minha mãe são pianistas. Cresci ouvindo música, e, de repente, pedi um violino como presente de Natal. Comecei aos seis anos de idade e nunca tive nem uma pequena crise que pudesse me fazer desistir. Decepções, derrotas, tudo isso sempre foi muito fraco em comparação a força do meu amor e paixão pela música.

OEMT – Para finalizar, você ouve música brasileira ou outras músicas que não sejam música de concerto?

Baldini – Escuto quase somente música de concerto, mas ao contrario de muitos violinistas, escuto mais música para outros instrumentos do que música para violino… Quartetos, canções, óperas, sinfonias, repertório pianistico… Sou um devorador de música. Gosto de muitos outros gêneros musicais. Adoro a MPB e exixtiu vários períodos da minha vida em que tinha uma paixão ou outra para tal cantor ou para tal grupo… Mas hoje em dia, o pouco tempo livre do qual disponho, me leva a escutar sempre minha preferida música de concerto… Tão variada, tão ampla que não basta uma vida para conhecer tudo!

Israel Honorato Dutra

Oi! Me chamo Israel sou violinista, idealizador e "faz tudo" do Portal Violino Vermelho.

2 comentários em “Entrevista com Emmanuele Baldini

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