ENTREVISTA | Rucker Bezerra na UDESC

Rucker Bezerra e sua memorável passagem pela UDESC

Rucker BezerraEsteve presente pelas dependências da UDESC ( Universidade do Estado de Santa Catarina) o violinista Rucker Bezerra que durante toda uma semana ficou integralmente envolvido com o ensino através de masterclasses, palestras e ainda a regência da Orquestra Acadêmica da UDESC.

Os graduandos dos cursos de bacharelado em música (inclusive este que vos fala) puderam desfrutar de uma personalidade contagiante com ótimo senso de humor além de uma experiência vasta.

 

PERFIL

ENTREVISTA | Rucker BezerraNatural de João Pessoa, Rucker Bezerra de Queiroz iniciou seus estudos de violino em 1985 com Yerko Pinto, seu grande mestre, que o acompanhou até a conclusão do curso superior.

Graduado pela UFPB (1991), Mestre (2002) e Doutor pela Unicamp – SP, é professor efetivo de violino da Universidade Federal do Rio Grande do Norte, spalla da Orquestra Sinfônica da AMUSA-PB e spalla da Orquestra Filarmonia-RJ. Foi aluno de Yerko Pinto, Andzej Grabiec e Erick Friedman. Foi solista de várias orquestras no Brasil atuando com regentes como Eleazar de Carvalho, Elena Herrera, Carlos Veiga, Per Brevig, Paolo Bellomia, dentre outros. Apresentou recitais em todo Brasil, nos Estados Unidos e Itália. É membro fundador do Quinteto Uirapuru. Vencedor do prêmio Tim, categoria música instrumental com o CD Sivuca & Quinteto Uirapuru.

ENTREVISTA

Israel (V.Vermelho): Rucker, como foi sua iniciação no instrumento (violino)?
 
Rucker: A Paraíba dos anos 1970 e 1980 viveu momentos absolutamente incríveis no que se refere à música de concerto. O ambiente era muito favorável, a cidade estava sempre recebendo grandes solistas, a Orquestra Sinfônica da Paraíba atingiu um nível que era reconhecido internacionalmente regida por Eleazar de Carvalho. Essa conjunção de fatores colaborou para que muitos pais incentivassem seus filhos a estudar um instrumento. Eu comecei com o violão popular, depois procurei a UFPB para estudar violão erudito e apenas aos 15 anos, fui convencido a estudar um instrumento de orquestra, pois a Sinfônica Jovem da Paraíba estava prestes a ser reativada. O violino foi uma paixão que me arrebatou ao ouvir um disco que meu pai tinha, de um grande músico americano, o Erick Friedman, tocando a Introdução e o Rondó Caprichoso de Saint-Saens. A partir daí passei a ter aulas com o Yerko Pinto, que me acompanhou até a conclusão do Bacharelado.
 
Israel (V.Vermelho): Foi fácil decidir pela carreira de músico?
 
Rucker: Eu, até conhecer o violino, tinha certeza de que faria medicina. Na escola, estudava para fazer vestibular para medicina. O problema foi que no ano de 1988, eu prestei concurso para a Orquestra da Paraíba e passei. Então eu já tinha meu dinheiro, a orquestra pagava bem e eu estava muito feliz pois o grupo era muito bom, fazíamos grandes concertos. Mas chegou o vestibular e eu fiz com primeira opção medicina e segunda opção música. Para minha surpresa eu passei para medicina e então tive que optar. Esse foi talvez o momento mais difícil, pois a pressão de fazer medicina era grande, principalmente dos colegas de escola. Procurei me aconselhar com meus pais e eles apoiaram integralmente a minha ideia de ser músico profissional. No final das contas, fiz um médico feliz, pois a minha vaga passou para um que não tinha se classificado…rsrsrs
 
 
Israel (V.Vermelho): A partir de que ano passou a ensinar? Foi fácil?
 
Rucker: Durante meu bacharelado, houve a mudança de governo e a Orquestra passou a não ter mais a atenção que tinha no governo anterior. Os salários baixaram, muita gente de fora que veio para a Paraíba atraída pelos bons salários, acabou indo embora. O nível da orquestra caiu bastante e eu vi que uma boa saída naquele momento seria tentar ensinar em uma universidade. Assim que acabei meu curso, apareceu uma oportunidade na Universidade Federal do Amazonas, em Manaus. Isso foi em 1993 e foi muito difícil no início. No bacharelado você não é treinado para ensinar. Eu não tinha a menor ideia do que fazer nas aulas e a saída foi ler, pesquisar muito e observar como eu poderia ajudar a construir um violinista, como montar uma performance. Até hoje eu pesquiso e tento sempre melhorar, despertar no aluno um artista que todos temos dentro de nós.
 
 
Israel (V.Vermelho): Dentre o vasto repertório do violino e a difícil tarefa de eleger, qual peça ou concerto é seu favorito? Se não puder se conter revele todos.
 
Rucker: Essa é fácil! O concerto para violino Op. 77 em ré maior de J. Brahms. Esse é o concerto da minha vida, o concerto que mais vezes toquei, o que me dá muito prazer de estudar e reestudar pois a cada nova leitura, a gente descobre alguma genialidade escondida nessa música maravilhosa de Brahms.
 
Israel (V.Vermelho): A ansiedade/nervosismo foi um dos assuntos abordados em classe. Como é possível lidar que este fantasma que assombra os teatros de todo o mundo?
 
Rucker: Ultimamente eu venho dedicando muito do meu tempo para compreender mais e poder ajudar as pessoas que sofrem tanto com esse “fantasma”. A cobrança na nossa profissão é uma constante e a procura por um parâmetro irracional de perfeição ajuda a tornar esse “fantasma”, um monstro terrível que pode simplesmente destruir um trabalho que é feito durante todo um período! O processo da construção de uma performance pode conter lacunas, pontos cegos, que no desenrolar dessa preparação acaba gerando uma insegurança que se não for corrigida, vai chegar até o palco. Infelizmente não vejo muitos colegas fazendo uma preparação específica com seus alunos visando uma segurança na performance que mire na diminuição desse medo do palco. Costumo trabalhar essa parte psicológica com meus alunos e nos cursos onde sou convidado.
 
Israel (V.Vermelho): Você poderia compartilhar com os leitores do site aquela sua experiência no Festival Folclórico de Parintins?
 
Rucker: Olha, isso foi realmente algo incrível. O Festival Folclórico de Parintins é de uma grandiosidade inimaginável. Tive a honra de ser escolhido jurado do Festival de 2012. É inevitável, depois que acaba, cada jurado simpatizar com um dos Bois: Garantido e Caprichoso. Talvez pela cor vermelha, que é minha preferida, eu passei a torcer pelo Garantido. No Festival de 2013, me convidaram a ir novamente a Parintins e que “trouxesse o violino”… Na tarde da segunda apresentação do Festival eu ainda não sabia o que iria fazer. Me ligaram à tarde para que fosse à sede do Garantido. Quando cheguei, vieram umas quatro costureiras para tirar medidas e rapidamente me levaram à sala da diretoria. Me perguntaram se eu gostaria de participar do espetáculo e se eu tinha medo de altura… Na hora eu topei, mas não sabia o que eles estavam preparando. Cheguei à noite e vi que havia um guindaste com uma cangalha que levantaria a 85 metros de altura eu e o Israel Paulain, o apresentador do Garantido. Sempre falo, essa foi a maior emoção que a arte já me proporcionou. Tocar para mais de 30 mil pessoas na arena, naquela altura absurda e ir descendo até pousar na arena…inesquecível! Vocês poder ter uma ideia no youtube…(Clique Aqui para Ver)
 
Israel (V.Vermelho): Na Orquestra UDESC tivemos o privilégio de executar uma de suas composições. Você pode falar um pouco a respeito dela?
 
Rucker: Esse suíte eu compus em 2008. Se chama “Suite Evanar”. Evana é o nome de minha esposa, mãe dos nossos filhos. Resolvi homenageá-la com essa música. Ela foi estreada em São Paulo, em 2009 e apresentada várias vezes, sempre com quinteto de cordas. Na UDESC, foi a primeira vez que ela foi executada com uma orquestra de câmara e o resultado foi excelente! Fica chato eu falar isso, mas o comentário geral foi muito positivo…rsrsrrs
 
Israel (V.Vermelho): O que é um “virtuosi” para você?
 
Rucker: Pra mim, o virtuosismo pode aparecer de diversas maneiras, não apenas com notas rapidíssimas. O virtuosismo, pra mim, é evidente quando se vê ou se ouve uma música capaz de fazer chorar de emoção. O artista que tem condição de proporcionar essa emoção a alguém, é um virtuoso!
 
Israel (V.Vermelho): O que pode dizer sobre sua breve passagem pela UDESC?
 
Rucker: Foi uma experiência fantástica! Eu costumo lecionar em cursos em todo brasil e eventualmente no exterior e cada vez eu gosto mais de poder dividir a minha experiência. Me esforço para tentar motivar e mostrar que cada um, dos mais limitados aos mais adiantados tem algo fundamental para mostrar. Cada um de nós temos um artista que precisa ser ouvido. Eu vejo muita gente que sozinha, se diminui. Gente talentosa que não acredita em si mesmo. Eu fico realizado quando ouço de alguém depois de uma semana como essa que valeu a pena, que se motivou, etc… Isso vale mais que qualquer coisa! Conheci uns jovens extremamente talentosos e muito bem orientados pelo Prof. João Titton. Essa classe de violino da UDESC tem tudo para, num futuro muito próximo, fomentar orquestras e escolas de música do país.
 
Israel (V.Vermelho): Rucker, o que é a música?
 
Rucker: É uma das artes mais incríveis e é um privilégio poder viver dela.
Em 1987, fiz meu primeiro curso de férias em Londrina. Lá tinha um cartaz escrito a mão com esse pensamento de um dos maiores artistas de todos os tempos. Nunca esqueci dela e acho que ela responde com clareza a tua pergunta: 
 
” A música cria a ordem a partir do caos,
pois o ritmo impõe unanimidade ao divergente,
a melodia impõe continuidade ao descontínuo e
a harmonia impõe compatibilidade ao incongruente.” (Yehudi Menuhin)
 
Israel (V.Vermelho): Agora este espaço é seu para colocar suas considerações finais.
 
Rucker: Primeiramente eu gostaria de te agradecer a oportunidade de falar para um canal tão importante como o Violino Vermelho. Depois agradeço a paciência e a disposição de todos vocês em trocarmos experiências durante essa semana de oficina na UDESC. Foi uma semana intensa que um dia gostaria de repetir. É sempre ótimo ver, depois de algum tempo, como vocês estão se desenvolvendo. Contem sempre comigo. Foi um imenso prazer conhecer cada um de vocês!
 

Israel (V.Vermelho): Rucker, mais uma vez obrigado. Agradeço sua disponibilidade, atenção e os ótimos conselhos. Desejo a você muito sucesso e mais outras mil histórias engraçadas para contar na sua próxima visita. 

orquestra udesc

Israel Honorato Dutra

Criador do portal Violino Vermelho e violinista a mais de 15 anos tendo atuado predominantemente em orquestras desde o início de sua carreira com as quais teve oportunidade de se apresentar nacional e internacionalmente. Atualmente é bacharelando em violino na Universidade Estadual de Santa Catarina como discípulo de João Eduardo Dias Titton, mestre pela University of Cincinnati (EUA).

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