Helena Piccazio entrevista Véronique Mathieu

Helena Piccazio entrevista Véronique Mathieu

8 de julho de 2015 Entrevistas 0
Véronique Mathieu

Véronique Mathieu

Véronique Mathieu fala sobre aquecimento

Retirado do blog Papo de Violinista

Na segunda publicação da série COMO EU AQUEÇO, entrevisto Véronique Mathieu.

A violinista canadense é atualmente Professora de Violino na Universidade do Kansas, Estados Unidos, e já é figurinha carimbada no Festival de Piracicaba, tanto ensinando quanto se apresentando. Véronique ganhou prêmios no Concurso de Música Contemporânea Eckhardt-Gramatté 2012, no Concurso Internacional de Música Contemporânea de Krakóvia 2010 e três vezes a Competição do Banco de Instrumentos do Conselho do Canadá. Como membro do Trio Micheletti (com o cellista brasileito André Micheletti e a pianista japonesa Jasmin Arakawa), ela venceu o Grande Prêmio em 2009 no Concurso de Performance de Música da América Latina e Espanha. Mais sobre Véronique no final da entrevista.

Helena Piccazio – Qual é a primeira coisa que você faz quando tira o violino do estojo?

Véronique Mathieu – Depois de afinar? (risos)

Helena – (risos) Sim, logo depois de afinar…

Véronique
– Eu estudo cordas soltas por mais ou menos 20 minutos todo dia, eu ponho o metrônomo em 60, eu faço dois arcos na corda sol, dois arcos na ré, dois arcos na la e dois arcos na mi. Dependendo de quanto tempo eu tenho, começo com 8 batidas por arco, e aí quando eu termino na mi eu subo pra 10 batidas e faço mi-mi la-la re-re sol-sol. Aí eu subo pra 12, 14 e geralmente vou até 28 ou algo assim. Se eu estiver com pressa eu começo meu aquecimento em 20 e aí eu subo.

Helena – 20 batidas por arco com metrônomo a 60?

Véronique
– Sim. Todos os meus alunos têm que fazer isso e a maioria está em 26 agora. Se eu não andei aquecendo por um longo tempo, o que eu faço é: quando eu começo, faço uma paradinha com o arco em cada batida, só pra ter certeza de que estou dividindo o arco realmente bem, então eu faço um arco com paradinhas e aí a mesma contagem sem as paradas, só pra voltar ao foco. 

Helena – Você faz isso no espelho ou não necessariamente?

Véronique
– Já fiz o suficiente no espelho, agora eu não sinto que eu precise. Me botaram pra fazer corda solta quando eu tinha, eu acho, 18 ou 19 anos, e isso era tudo que eu estudava: cordas soltas em frente ao espelho, por horas a fio todo dia. Então agora eu consigo dizer se meu arco tá bem dividido ou não. Teve uma melhora, não? Eu digo aos meus alunos pra estudar na frente do espelho, porque eles nem sempre têm certeza da divisão, mas eu consigo saber. Então essa é a primeira coisa que faço. Quero dizer: meu aquecimento muda sempre um pouco de um dia pro outro e isso depende de quanto tempo eu tenho, mas eu basicamente cubro notas longas, mudanças de posição, cordas duplas, escalas e spiccato, de um jeito ou de outro. Essas são as coisas pelas quais eu tento passar todo dia.

Helena – Por exemplo, você falou de mudança de posição: você faz sempre o mesmo exercício para mudança de posição ou você varia exercícios?

Véronique – Não, eu não uso sempre o mesmo exercício. Eu uso, você sabe aquele assim [e canta o exercício, figura abaixo], tipo Dounis, esse é meu aquecimento de emergência, tipo “eu não tenho tempo de tocar nada e preciso me apresentar”, então eu faço o mais agudo que dá em cada corda; senão eu uso um número do Secvik opus 8 e faço uma corda, ou um padrão de mudança. Eu sempre prefiro fazer menos, mas até que esteja o mais perfeitamente afinado que eu consigo, ao invés de passar por cinco páginas de exercícios de mudanças. Eu tento trabalhar, por exemplo, só três mudanças, mas realmente bem, e aí me sinto aquecida em relação a mudanças de posição.

Esse exercício também é feito começando com os outros dedos.

Helena – Tem outros exercícios que você recomenda pro aquecimento, que você faz normalmente, como Schradieck, alguma coisa pro spiccato, ou algo assim?

Véronique – Eu gosto das duas primeiras páginas do Schradieck. Eu gosto do livro do Ysaÿe, aquele com as mudanças de corda. Esse livro tem basicamente 3 padrões de escalas, só umas 10 páginas, e eu gosto da primeira página, para mudança de corda. Então, aí é que está o negócio com o aquecimento, você pode criar qualquer tipo de exercício, esse está escrito com mudanças de cordas, mas eu poderia fazer minhas cordas soltas metade das batidas na corda sol, metade na re, e alternar pra trabalhar mudanças de corda, quero dizer, com esse aqui, ele te dá um padrão. Por exemplo, quando eu faço aquecimentos em grupo, como em studio class [aula em conjunto dos alunos de um único instrumento] quando fazemos exercícios, eu uso essa página do Ysaÿe. Para os dedos, o primeiro passo é Schradieck, mas eu gosto de usar o Moto Perpetuo de Paganini, para spiccato e para movimentação rápida dos dedos. Essa peça é muito boa pro spiccato, essa é a peça que uso pros meus alunos trabalharem em spiccato também. Você toca quatro vezes cada nota, depois duas, depois uma, e eu estudo começando pra baixo e depois pra cima pra ter todos os arcos invertidos. Pra mim isso meio que se equipara com o Schradieck.

Helena – Você faz a peça toda ou só por um pedaço de tempo?

Véronique – Geralmente eu toco ela toda, para resistência, eu toco ela toda uma ou duas vezes, para o spiccato, porque aí você realmente não pode tocar tensa. Se você usa spiccato numa escala, está ok mas, você ainda pode dar um jeito dela sair mesmo estando tenso, mas você não consegue tocar o Moto Perpetuo duas vezes estando tenso. E aí eu faço escalas. Quero dizer, não importa realmente em qual tonalidade, são só realmente escalas em la, com algum padrão de arcada, pra estabelecer minha afinação, e aí faço terças e oitavas. Não faço muito, eu tenho um padrão de cordas duplas onde eu sempre começo na primeira posição independentemente da tonalidade – 1a posição 3/1, 4/2, 3a posição 3/1, 4/2 – e eu mudo a tonalidade mantendo esse mesmo padrão.

Helena – Então em qualquer escala em terças que você faça você sempre começa com o primeiro e terceiro dedos na primeira posição?

Véronique – Sim, porque aí o padrão de dedilhado é o mesmo. Eu não começo na tônica, eu começo nessas notas, mas com os acidentes corretos da armadura de clave.

Helena – Entendi, então você começa na primeira posição não importa o lugar da escala que você está.
Exemplo de exercício de terças na corda sol, em Ré maior,
para ser feito da mesma forma nas outras cordas e outras tonalidades.

Véronique – Não importa, mas as terças estão na tonalidade certa. Então isso é o que eu faço, e aí oitavas também. Eu não faço sextas, eu não nado em tempo também (risos), tipo, se eu tivesse 2 horas pra aquecer eu provavelmente faria oitavas dedilhadas e décimas, você sabe, trinados e vibrato; mas essas são as coisas que eu tenho que tocar, e eu não estudo décimas porque eu tive muitos problemas físicos na mão, e aí sou muito muito cuidadosa com cordas duplas. Mas isso é uma coisa do meu próprio corpo, senão eu estudaria extensões, e por um bom tempo eu estudei o Sevcik pra isso, coisas desse tipo, são muito boas pra mão, mas agora sou muito cuidadosa, então estou meio protetiva em relação às extensões. É o aquecimento que eu escolho porque sei que essas são as coisas às quais preciso me direcionar, tipo, eu preciso começar com um bom som, com afinação centrada, e, de novo, eu tenho mais flexibilidade se eu estudar cordas duplas, isso realmente me ajuda a aquecer, e spiccato só porque eu não tenho um bom spiccato natural. E aí eu vou para os estudos, passo um ou dois estudos, com o metrônomo, com variedade, eu passo por Mazas, Kreutzer ou algum Gaviniés, só pra fechar o aquecimento.

Helena – Você os faz a tempo ou mais devagar?

Véronique – Se eu tenho 3 livros de estudos, eu já toquei eles várias vezes, e sempre tenho algum aluno trabalhando em algum deles, então geralmente os faço muito próximo ao tempo, a não ser que eu sinta que vou ficar tropeçando por todo o estudo, então não vou pegá-lo a tempo, mas em geral, perto do tempo, ou uma vez devagar e uma vez a tempo.

Helena – Quanto tempo você demora pra aquecer geralmente?

Véronique – Posso me aquecer em 5 minutos se eu precisar, posso fazer em 10 minutos. Idealmente 40 minutos é um bom tempo pra mim, mas eu tenho meus aquecimentos de emergência, um pouco antes de tocar alguma coisa, eu sei o que posso fazer para “parecer” aquecida. Mas 40 minutos é um bom tempo, porque eu gosto de fazer 20 minutos de cordas soltas.

Helena – Você tem aquecimentos diferentes para estudo e performance?

Véronique – Sim e não… tipo, se eu estou só estudando em casa, eu faço um aquecimento de manhã e não vou reaquecer. Se eu tenho uma performance, eu faço meu aquecimento matinal, mas durante o dia eu faço muito estudo lento, e aí antes do concerto eu faço cordas soltas de novo, só pra ter certeza que estou calma, ou escolho uma passagem e toco muito muito lento para afinação. Aí eu não sei se você chamaria isso de aquecimento extra, mas…

Helena – Bom, é uma preparação diferente, de qualquer forma.

Véronique – Sim, bom, digamos que se eu tenho um concerto eu gasto mais tempo no aquecimento, ou que eu tenho outras partes de aquecimento acontecendo durante o dia. Mas geralmente eu toco escalas super lentas, se eu estou nervosa antes de tocar eu faço escalas com respiração, expirando em cada nota, realmente muito lento,assim: inspira, expira com uma nota longa, inspira, expira com uma nota longa, e aí eu faço isso numa escala e isso também é aquecimento.

Helena – É sim!

Véronique – Mas é um foco diferente no aquecimento.

Helena – Você faz aquecimentos diferentes de acordo com o repertório que você vai tocar? Se vai tocar música contemporânea, barroca ou tradicional, você tem aquecimentos diferentes pra cada uma?

Véronique – Não.

Helena – Você faz alongamento?

Véronique – Eu deveria, mas sou muito inconsistente com alongamento. Se por acaso durante o dia eu sinto que estou ficando cansada aí alongo. Especialmente se acabei de sair de um vôo, eu alongo porque me sinto toda descompensada, mas realmente depende, se eu não dormi bem eu alongo, se acordo e me sinto bem, não vou alongar. Então não é parte da minha rotina. Se bem que eu acho realmente importante. Na maioria dos meu dias eu não estudo cinco horas porque eu dou aula, então talvez eu não tenha tanta necessidade de alongamento nesse momento, mas se eu estou tocando bastante eu alongo sim, principalmente depois de tocar.

Helena – Você faz algum exercício para a concentração? Com ou sem o violino, não importa.

Véronique – Antes de se apresentar ou em geral?

Helena – Pra estudar ou se apresentar.

Véronique – Se eu tenho um concerto eu geralmente faço uma visualização mental. Faço alguns exercícios de respiração antes. Passo as peças na cabeça. E aí, claro, vários hábitos saudáveis, tomar bastante água naquele dia, não tomar tipo três cafés logo antes de tocar, bons hábitos de senso comum. Mas eu costumava ser doida.

Helena – Sério?

Véronique – Ah, sim. Quando eu tinha 19, 20 anos, se eu tinha um concerto grande eu não tomava café nas duassemanas anteriores, eu ia dormir às 9 da noite, coisas assim. Mas você passa por fases, sabe?

Helena – Minha última pergunta: baseando-se nas visitas ao Brasil, nas pessoas que você ensinou e todo mundo que você viu tocando por aqui, o que você recomendaria aos estudantes de música, não só de violino, em relação ao aquecimento? O que você diria pra eles fazerem?

Véronique – Eu sei que muitos dos estudantes simplesmente não aquecem, então a recomendação seria: aqueçam. E que é muito importante ser bem exigente, chato mesmo, porque eu já vi muita gente aquecendo, mas eles não paravam quando não estava perfeitamente afinado, ou não estavam realmente firmes, eles não focavam no aquecimento, era mais “esse negócio que se faz antes de conseguir tocar”. E pra mim quanto melhor a qualidade do seu aquecimento, quanto mais exigente você é, isso realmente determina o nível do estudo que está por vir. Porque quando você toca uma escala sem ter cuidado com os seus meio-tons, está meio alto e você diz “ah, tá perto o suficiente”, aí quando você toca uma peça onde você tem que se preocupar não somente com a afinação mas também com o fraseado, a música, e mais coisas técnicas, aí realmente não vai ser um concerto muito bom que você vai fazer. Eu acho que se você tem um aquecimento de alta alta qualidade, onde você é muito exigente, isso vai fazer o resto do seu dia mais valoroso e eficiente em termos de estudo. Eu sei que muitas vezes não é ideal, porque muitos dos espaços que eu vi no Brasil tem muita reverberação, ou não tem isolamento acústico; não é sempre fácil achar um espaço ideal pra estudar onde dê pra ouvir muito bem, é difícil achar um lugar com som seco, talvez às vezes estudar com surdina de estudo se isso ajudar o som. Mas é sobre qualidade, não é apenas gastar o tempo, mas gastar o tempo de qualidade.

Helena – Muito obrigada!

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Sobre Véronique Mathieu

Véronique Mathieu é uma ávida intérprete de música contemporânea, ela encomendou e estreou várias obras de compositores americanos e canadenses, e gravou para a série de CDs New Music at Indiana University, o selo de Radio-Canada, Centrediscs e Pheromone. Ela foi convidada para participar do Lucerne Festival Academy sob direção de Pierre Boulez, e se apresentou durante o Thy Chamber Music Festival de 2009, na Dinamarca.

Apresentou-se como solista com orquestras como a Orquestra do National Arts Centre, a Orquestra Sinfônica de Oakville, a Filarmônica de Americana, a Kokomo Symphony, a Columbus Indiana Philharmonic, e o Montreal Contemporary Ensemble. Os destaques desta temporada incluem apresentações solo durante o Festival de Música Scotiabank Northernlights 2014 no México e nos Fairbanks Festival de Música Nova no Alasca, a estreia de novas obras solo de David Vayo e Gabriel Dufour-Laperrière durante o Festival Sound Symposium em Newfoundland, e o lançamento de um CD com o Art Ensemble of Time.

Véronique ganhou muitos prêmios no Canadá antes de concluir seu bacharelado em Música no Conservatório de Québec. Em 2002, foi convidada pessoalmente por Pinchas Zukerman para participar no seu Programa Young Artists. No ano seguinte, obteve o Artist Diploma com “sucesso extraordinário em performance violinística” pela Universidade McGill, como estudante de Denise Lupien, e recebeu o prêmio Ethel J. Ivey e a Bolsa de Estudos Lloyd Carr Harris. Ela completou o Performer Diploma e o Mestrado em Música na Universidade de Indiana com a professora Miriam Fried, enquanto trabalhava como Instrutora Associada de violino. Em 2014 ela terminou o Doutorado em Música em Violin Performance na Universidade de Indiana, sob a orientação de Mark Kaplan, e é apoiada pelo Conselho das Artes do Canadá. Véronique agradece ao Conselho das Artes do Canadá por seu generoso apoio através do empréstimo do violino Joannes Franciscus Pressenda de 1820.

 

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