Ouvir E Entender Música – 6 – Melodia


por Coelho De Moraes baseado na obra de Aaron Copland

 

MELODIA
A melodia traz a idéia do movimento, da emoção íntima ou da emoção exteriorizada. A palavra movimento, ação, em grego é DRAMA. A melodia pode nos comover, ninguém sabe por que. Talvez estimule uma memória genética e a resposta do corpo sobre isso. O que constituirá uma boa melodia? Boa em termos de mercado ou boa em termos de poderosamente evocativa? Se ela invadir nosso íntimo e revolve-lo será boa ou pode trazer o mal? Aquela coisa que balança os valores pessoais e os valores da sociedade? Jung explicará?

A melodia com altos e baixos, em volume e tensão,  evitando a repetição de notas sem significados, que seja longa e fluente e envolvida em clímax que se aproxime de seu fim. Tais são os momentos de atenção e de leve temor. Agonismo e antagonismo. Tempestade e Movimento. Nem sempre foi assim. O clímax é necessário ou essa composição pode apenas ser um painel sonoro?

Outro ponto importante é a fluência rítmica dentro do desenho melódico.
A melodia deve obter uma resposta emocional, e aí não há regra, a não ser que o compositor seja um grande leitor do emocional de seu povo e saiba obter linhas melódicas que estimulem uma resposta emocional evidente, catártica.

O compositor tem que ter cultura. Inevitável. Por outro lado ele se limitará a perguntar a seu editor que tipo de ritmo “rola agora na mídia”. Tais “artistas’ são a maioria. Em fundamentos a arte não precisa, necessariamente ser vendida.

Há movimento e repouso provisórios – cadências – nas melodias. E elas, academicamente falando, existem dentro dos limites de escalas. A escala é certo arranjo de notas, pertencentes à mesma família.  Há notas que fazem parte de várias famílias e ganham características e influência de cada uma delas. A escala tocada do grave para o agudo pode emitir certa característica, diferente se fizermos o contrário, se tocarmos do agudo para o grave. E isso estando ainda na mesma escala. Percebam, então, a riqueza disso.

Cada arranjo pode obedecer a escolas e épocas. Não podem ser arranjos arbitrários, mas se forem seqüências escolhidas terão que seguir um critério e que esse critério seja obedecido até o fim da composição. Ouvir, nesse caso, Rachmaninoff, por exemplo.

Isso comprovará o talento e o cuidado do artista.

Usamos quatro sistemas: oriental, grego, eclesiástico e moderno. Usamos mais o MODERNO.
Tomemos o MODERNO: essa escala está dividida em doze tons “iguais”, chamados semitons, formando a escala cromática (croma=cor). A maior parte da nossa música “moderna”, não se baseia no cromatismo, mas na escala de sete tons extraídos dos doze. Essa escala de sete sons é a escala diatônica (tons separados, ou definidamente separados). Cante o dó-ré-mi-fa-sol-lá-si-dó que você conhece desde criança, e é isso. Isso é uma escala do modo MAIOR.

Alguns dizem fisiológica. Outros se apóiam nos valores da cultura. Mas, retirando-se o nome de cada nota  e dando números, teremos os graus. 7 graus. Através da Série Harmônica construímos essa escala subdividindo a corda tocada.

Cada som cromático gera uma escala – momento exato para ouvir o CRAVO BEM TEMPERADO de Bach. Vamos lá, mova-se. Ponha um CD para ouvir. Ligue seu I-pod. Mp3 na cabeça! Vamos!! Não fique dormindo no ponto. Nem no contraponto.

Teremos então doze escalas do modo Maior. Cada nota gera uma escala.

Teremos, daí, a geração de doze escalas do modo Menor.

O nome da escala é a primeira nota da escala. No caso acima teremos uma escala de Dó, do modo Maior ou do modo Menor.

Modular é passar de uma para outra escala ou para uma terceira a escolher. O compositor tem livre arbítrio, ou o livre arbítrio que uma escola ou estilo permitam que ele tenha. Ou seja, você é livre contanto que obedeça as leis.

Dentro da escala há forças de atração. Nesse sistema, que chamaremos tonal, já que se baseia numa nota que dará o tom da escala,  a primeira nota da escala é a de maior ATRAÇÃO TONAL.

Atração fatal. Atração tonal. Atração final.

A segunda mais forte é quinta da escala, ou seja -ré-mi-fa-SOL. Em seguida, nesta escala estudada,  teremos o FA, com poder de atração, completando o jogo do sistema Tonal, onde se apóia a música ocidental e clássica, em linhas gerais. Aliás, muito gerais.

FA-sol-la-si--ré-mi-fa-SOL. O jogo das quintas. O pivô (centro tonal) DÓ se relaciona com FA (quinta abaixo) e com o SOL (quinta acima).

Num outro formato, também fundamento tonal temos: DÓ-ré-mi-FA-SOL. O pivô, a âncora tonal DÓ, se relaciona com sua quarta ascendente FA e com sua quinta ascendente SOL.

Resta saber que são estes, justamente, os tons maiores da escala DÓ, FA e SOL. O resto é menor ou diminuto. Logo, neste caso padrão,  GRAU I (DÓ), GRAU IV (FA) e GRAU V (SOL), são estruturas fundamentais do grau tonal e são tons chamados maiores. O primeiro grau será perfeito Maior. É através da vibração dessa tônica que eclodem todos os outros sons simpáticos à tônica.

Para construir sua melodia muito cantável evite saltos maiores do que terças – ou duas notas, pulando uma, – facilitando assim a entonação e decoração das partes. Mas, isso depende do seu livre arbítrio. É claro que esse tipo de melodia vem sendo feita desde o século 9, portanto há necessidade de muita criatividade para algo original. Talvez a originalidade não esteja na melodia fluida, mas na melodia quebrada… Talvez nem na melodia.

No sistema tonal o retorno à tônica (GRAU I) é uma obrigatoriedade. Ou uma fixação na notas mais atrativas, ou seja a QUARTA ou a QUINTA, contadas em relação à tônica, que é a PRIMEIRA. A habilidade com que se faz isso é que dará a característica e formará o estilo do compositor.
Wagner e Strauss foram mais arrojados e criaram melodias com saltos audazes; mas, nesse momento também estaremos numa época em que tudo será, inclusive o sistema Tonal. É um momento de rompimentos. É, – no caso de Wagner, Debussy – final do século 19: Tempo de Revoluções e mudanças no planeta. A arte acompanha esses destinos.

A melodia é a pista que nos leva por território desconhecido. Ela pode desaparecer, voltar, voltar com obstáculos, mas é a pista.

Por ora, sigamos a melodia. Um dia ela nos deixará para nos legar harmonias e organismos e estruturas, mas ora… sigamos a melodia.

Para ouvir: Wagner – a serenata para a Lua e Isabel de Wolfran no Tanhauser.

Se você for romântico o concerto para violino e orquestra de Tchaykoviski.

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